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Visto da Janela

Um olhar sobre o mundo - o mais próximo e aquele mais distante. De quando em vez, ou sempre que haja um minuto para uma nota, breve, ou mais prolongada. Para aqueles que estejam dispostos a ler-me...

Lutar pela paz, uma constante

por vistodajanela, em 03.03.22

            Papa Francisco visita Embaixada da Rússia.jpg António Guterres A G da ONU.jpg

“A Europa connosco”! Recordo bem este slogan. Mário Soares procurava assim mobilizar a opinião pública portuguesa para a participação nas primeiras eleições legislativas livres após o 25 de Abril de 1974. Uma Europa de paz e de progresso económico e social. Assim se mostrava a Comunidade Económica Europeia. E no espetro político nacional, a maioria dos portugueses passaram a rever-se nesse desígnio. Talvez por isso, muitos dessa geração acompanhem neste momento, preocupados, a invasão da Rússia à Ucrânia. A Europa em guerra. A mostrar, hoje, que é muito difícil viver em paz.

Esta guerra torna bem visível quão difícil é evitar conflitos quando se está perante governos autocratas, de um poder unipessoal, praticamente o único detentor de poder no seu país. E quando se ordena o alerta máximo da força de dissuasão nuclear tudo se torna mais grave.

Julgava, todos nós estávamos convencidos, que a guerra e os seus malefícios estariam longe da Humanidade neste séc. XXI. Quem nasceu pouco depois da devastadora guerra de 1939-45, viveu os anos da guerra das Coreias, se viu envolvido na guerra das ex-colónias portuguesas, acompanhou a Guerra Civil que se seguiu ao desmembramento da Federação da Jugoslávia, teria o direito a viver em paz. A convivência pacífica, de progresso e desenvolvimento que a construção paulatina, mas consistente, que a União Europeia proporcionou a muitos dos países da Europa era um excelente prenúncio. Também por isso, a vida em paz se tornou a convicção da generalidade dos europeus. Afinal… E não se diga que tudo se passa longe, porque assim não é. Hoje, tudo acontece muito perto de nós.

Neste cenário, destaque para personalidades imbuídas de um grande sentido humanista. O Papa Francisco deixou o mundo todo a interrogar-se por que razão tomou a iniciativa de se dirigir à Embaixada da Rússia em Roma, num claro apelo à paz. Que grande testemunho. O Papa Francisco, profundamente preocupado com a guerra na Ucrânia a deitar mão do seu papel de Chefe de Estado, que também é, para mostrar o caminho de que só a paz deve interessar a todos. E disponibilizou o Vaticano para intermediar uma solução. Também Ele a construir a paz. A outro nível, António Guterres, Secretário-Geral da ONU, na reunião do Conselho de Segurança, quebrando o protocolo, a dirigir-se à Rússia, pedindo “do fundo do coração” ao líder de um membro daquele Conselho, por sinal a presidir naquele momento, para “dar uma oportunidade à paz”.

 

Choques, ameaças e ataques

por vistodajanela, em 18.02.22

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A ver o mundo deste Marão, hoje, sombrio pela manhã, envolto, mais tarde, por uma névoa que se foi transformando na chuva que, há muito, se aguardava. Quase em desespero, porque o adágio da Senhora das Candeias tardava a concretizar-se - «Se a Senhora das Candeias rir, a chuva está para vir». Pois ela aí está, a quase dificultar essa visão do mundo. Valem-nos estas outras formas comunicar, que a internet nos propicia.

Os últimos dias foram pródigos em acontecimentos. Nem todos funestos. Mas há sempre quem veja algo de negativo no que vai acontecendo. Se no dia seguinte às eleições legislativas de 30 de janeiro muitos se regozijaram, outros houve que nem por isso. Manda o realismo e os princípios do sistema democrático que se respeitem os resultados eleitorais. Ao menos isso. Pois houve quem não se conformasse. Azia q.b.! Choque! Declarações públicas dirigentes dos que deviam comportar-se como pilares da democracia, que os partidos são, deixam muito a desejar. Seguiram-se ameaças de saída à rua e queixinhas. Normal dir-se-á. Também o direi. Mas há um tempo para tudo. Para a democracia representativa funcionar e para a democracia direta se expressar.

As televisões trouxeram-nos casa adentro notícias que amedrontaram o comum dos mortais. Nem todos têm a capacidade de separar o trigo do joio. Por isso se tornou tão polémico o comunicado conjunto do Ministério Público e da Polícia Judiciária a respeito do atentado que esteve para acontecer, mas que, afinal, não aconteceu. O jovem chegado da aldeia à cidade grande, à universidade, que planeia um atentado?! Inadaptação? Ódio? Vontade de matar? As televisões excederam-se com imagens do jovem estudante, da sua família e da sua aldeia. A outro nível, houve mesmo ataques reais. Também eles, muito preocupantes. Foram ciberataques a empresas de comunicação social, a uma outra de telecomunicações e a um laboratório da área da saúde. Os alvos são empresas sensíveis. Em todos estes casos com consequências nefastas para o comum das pessoas, muitas delas sem nada que possa merecer os malefícios de um jornal que não sai, de uma televisão que deixa de emitir, de uma rede de telecomunicações que fica bloqueada e não permite que filhos contactem com os pais, de empresas impedidas de desenvolver os seus negócios, infraestruturas de saúde que deixam de poder prestar serviços essenciais, em qualquer situação, mas ainda mais em caso de pandemia como o que se vive atualmente.

Quando o eu chega ao extremo

por vistodajanela, em 03.02.22

 

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Nesta tarde solarenga de 27 de janeiro, em frente ao computador hesitava em trazer ao meu “Visto do Marão” dois temas da atualidade, de interesse claramente regional, quando uma notificação de um eurodeputado me lembrava que estávamos no “Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto” – 27 de janeiro de 2002/27 de janeiro de 1945. Instituído pela ONU em 2005, pretende que não se esqueça o genocídio em massa de seis milhões de judeus pelos nazis e respetivos colaboracionistas. Foi um dos maiores crimes contra a Humanidade de que há memória. Mas, de igual modo, a instituição deste Dia pretende educar para a tolerância e a paz, assim como alertar para o combate ao antissemitismo. A este propósito, o Público lembra hoje que «o aumento de ataques contra judeus em todo o mundo fez de 2021 “o ano mais antissemita da última década”.

No último “Visto” abordámos a importância da valorização do “nós” face ao “eu”, pois o Homem é um ser gregário, vive em comunidade e, também nesse sentido, deve empenhar-se na resolução dos problemas da sua comunidade. Assim, é fundamental o respeito pela diferença, pela diversidade, como base de uma sã convivência de todos com todos. Isso não foi seguido nos anos trinta do século passado em alguns países, designadamente na Alemanha, dominada pelo totalitarismo ditatorial de Hitler. A perseguição ao povo judeu é uma mancha na História da Europa que não pode ser esquecida. O Parlamento Europeu, muito a propósito, realizou no dia 27 uma sessão extraordinária sobre essa questão. Porque não pode, não deve esquecer-se que o individuo, mesmo que visto na perspetiva de um povo, não tem o direito de se sobrepor a outros/outro, perseguindo, maltratando e exterminando através de atrocidades diabólicas, outras pessoas, um povo, mesmo.

Nenhum extremismo é justificável. Nem por motivo de raça, etnia, religião, orientação sexual, ou outro. Para que não se apaga da memória coletiva, revestem-se de especial importância os “Dias de…” Como este 27 de janeiro. Efetivamente, o Holocausto não pode ser esquecido, mesmo que já tenham passado 77 anos. Recordar essa tragédia obriga-nos a refletir sobre os direitos das pessoas, enquanto indivíduo e comunidade, sobre os Direitos Humanos e o valor da solidariedade. O ódio nunca é solução. A solução será sempre ver, preferencialmente, o “nós” para construir o bem comum.

Cinco notas breves sobre o dia 30 de janeiro pp

por vistodajanela, em 03.02.22

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Após um ato eleitoral é normal que cada um faça a sua leitura dos resultados. Nestas, ao que parece, já nem todos viraram os números de tal maneira que todos os partidos encontravam motivos para considerar uma vitória. Estamos a evoluir, nesse aspeto. Só nesse! Daqui, deste meu Marão – Miguel Torga dixit – 5 notas, o meu Visto:

1 – O eleitorado foi muito claro. Resolveu reafirmar a confiança em António Costa. Notem que ele esteve sempre à frente, destacado, mesmo quando as sondagens davam o PS e o PSD próximos.

2 – A sua mensagem em que valorizava a estabilidade foi claramente entendida pelos portugueses. Fator fundamental para que as políticas iniciadas em 2015 possam avançar. Os observadores, aqueles que, mais desinibidos, libertos de amarras que espíritos mesquinhos obnubilam, são capazes de objetividade constatam-no e atribuem-lhe significado decisivo.

3 – António Costa e o PS fizeram uma campanha de conteúdos e, pelos vistos, com um excelente trabalho de casa, como afirmou Luís Paixão Martins na CNN Portugal. Aquele trabalho com independentes de vários setores de atividade também o mostram. Nem os ataques de alguns setores da saúde evitaram que Coimbra (Marta Temido) e Leiria (Lacerda Sales) seguissem a tendência nacional.

4 – Pelo distrito de Vila Real e, de um modo geral, pela generalidade dos municípios que podemos designar como constitutivos da Região de Trás-os-Montes e Alto Douro, normalmente, mais conservadores, também se espalhou a onda rosa. Não escondo, todavia, que os votos da direita mais radical e da extrema-direita me preocupam. Quem não se preocupará?

5 – Desejo, e tenho esperança que assim sucederá, que António Costa continue a Avançar, prosseguindo uma política com preocupações e intervenções de natureza social, com um estado a desempenhar um importante e decisivo papel, para que ninguém fique para trás, mas em que as contas certas e uma boa gestão dos recursos continuem a dar a Portugal a boa imagem e a credibilidade internacional que granjeou neste 6 anos.

A Era do nós ou do eu?

por vistodajanela, em 20.01.22

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Créditos da fotografia - https://pixabay.com/pt/photos/trabalho-em-equipe-equipe-engrenagem-2499638/

Quando há dias vi a televisão noticiar que uma investigadora da Universidade do Algarve fora contemplada com uma prestigiada bolsa do Conselho Europeu de Investigação, fiquei curioso em saber um pouco mais do objeto da investigação. Dias antes, iniciara a leitura de «A Era do Nós – Propostas para uma Democracia do Bem Comum» onde encontrei uma interessante reflexão sobre a evolução da espécie humana, questionando o facto de o “Homo sapiens”, apesar de ter uma massa encefálica menor que a do “Homo neanderthalensis” ter sido o que sobreviveu e pode, agora, contar a história! É deveras importante que se possa continuar a estudar esta evolução e aprofundar o conhecimento sobre os nossos antepassados, assim como sobre os nossos “primos”. O objeto da investigação da Doutora Vera Aldeias “foca-se no período de transição de Neandertais para os Sapiens – um momento fulcral na nossa evolução e que pode ajudar-nos a explicar porque é que a nossa espécie é hoje a única a habitar o planeta”.

O autor de “A Era do Nós” analisa vários pontos de vista, desde logo, o “darwinismo” e realça que “o verdadeiro superpoder da espécie humana decorre da nossa capacidade de nos relacionarmos com os outros, de fazer amigos, de sermos capazes de aprender a viver em sociedade” e cita o cientista Brian Hare que considera que a evolução da Humanidade se resume à «Sobrevivência dos mais amigáveis”, título de uma das suas obras. O homem é um ser gregário. Como teorizou Aristóteles, ”é um ser político por natureza”, vive na cidade e em comunidade. Essa realidade envolve-o e responsabiliza-o na resolução dos problemas de todos, da sua “polis”. A vida em grupo, em comunidade, é fundamental para a sobrevivência.

As três últimas décadas do século passado distinguiram-se pela valorização da componente individual do ser humano. Os mais capazes, os mais competentes, os que se distinguiam teriam o direito a sobrevalorizar-se relativamente aos outros. São anos em que o “eu” se sobrepõe ao “nós”. É o tempo da ganância, dos yuppies, da reivindicação da liberdade individual, da independência e em que proliferaram as teorias e práticas do liberalismo económico.

Em Portugal, estamos num momento em que a consciência desta realidade assume clara relevância. Somos convidados a participar nas decisões que dizem respeito a todos, quer enquanto indivíduo, quer enquanto comunidade. Daí que o “eu” faça bem em pensar no “nós”, contribuindo, assim, para o bem comum.

Um ano de contrastes

por vistodajanela, em 06.01.22

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Fotografia Dinheiro Vivo

Se a vida fosse uma linha reta, talvez não mostrasse as debilidades que lhe é própria, ou as surpresas que vão surgindo. São, por isso, naturais, os altos e baixos, as curvas e contracurvas. Num breve relance, é o que se pode constatar no ano de 2021. À guisa de balanço, deixo aqui alguns desses contrastes.

Passou no passado dia 27 o 1º aniversário sobre o início da vacinação em Portugal contra a Covid-19. Todos recordamos a esperança que isso nos trouxe. Uns atrás dos outros, os portugueses disseram presente e, por seus próprios meios, ou com a colaboração das Câmaras e Juntas de Freguesia, foram-se deslocando aos centros de vacinação que o Governo e as Autarquias, em cooperação institucional organizaram. A vacinação primária aproxima-se de 90% e a dose de reforço já ultrapassa os 2,5 milhões. Com esta e com os 24 milhões de testes rápidos e PCR já realizados, o país ganhou um claro avanço sobre o SARS-CoV-2. Claro que também há manifestações contra esta e outras medidas. Aliás, importantes meios de prevenção. Contrastes! Janeiro foi um mês muito mau. Depois chegou alguma bonança e o ano melhorou muito. A área da saúde respondeu bem às necessidades, a economia acompanhou o esforço de todos e aí estão alguns números para o comprovarem: dados do INE mostram que “tomando como referência valores trimestrais, o saldo das Administrações Públicas no 3.º trimestre de 2021 atingiu o valor positivo de 1.904,1 milhões de euros, correspondentes a 3,5% do PIB, o que compara com -4,2% no período homólogo de 2020", o que significa que o “défice diminuiu 2,0 pontos percentuais, para 3,9% do PIB”. Por seu lado, a taxa de desemprego baixou, no 3º trimestre, para 6,1%, inferior a 2019.

Não o penso, mas estes e outros dados parece terem toldado o espírito de alguns dirigentes políticos. Daí, a estranheza de algo que não recordo ter acontecido nos quase 47 anos de democracia, a reprovação, logo na votação na generalidade, do Orçamento de Estado para 2022. E o conjunto de medidas que estavam preparadas, com tanto esforço, de técnicos, de governantes, resultado de muitos sacrifícios que os portugueses fizeram devido a esta pandemia – já lá vão 2 anos -, ficaram em espera. A recuperação de salários que, progressivamente, se vinha conseguido, os apoios sociais e às empresas, que tanto ajudaram no combate à crise tornou evidente que Portugal estava a avançar e no bom caminho. Tudo a evidenciar um 2021 de contrastes. Que 2022 seja melhor!

A celebrar a vitória da democracia

por vistodajanela, em 20.12.21

Em Santiago do Chile, milhares de pessoas celebram a vitória de Gabriel Boric, eleito Presidente nas eleições de domingo passado.

As ruas de Santiago do Chile dia 20 de dez 2021.pn

Foto do blog duas ou très coisas, de Francisco seixas da Costa

https://mail.google.com/mail/u/0/#inbox/FMfcgzGllVphJRFVkxfCJcVMdTBLqXfk

 

A Mátria a afirmar o património cultural de Trás-os-Montes e Alto Douro

por vistodajanela, em 16.12.21

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Como muito bem afirma Eduarda Freitas na página do Facebook da Mátria, a ideia de criar uma ópera com base nos Contos e Novos Contos da Montanha de Miguel Torga surge como uma das ações da candidatura da UTAD ao EEC PROVERE Douro-Região Vinhateira, que foi apelidada de «Douro Valor - Valorização e Promoção Económica, Cultural e Social de Património Imaterial do Alto Douro Vinhateiro». Sendo uma candidatura a desenvolver no território da CIM-Douro acabou por alargar o seu âmbito a toda a região. Afinal, o Reino Maravilhoso é Trás-os-Montes e Alto Douro, que a obra de Torga assume. Porque havia ideias claras sobre o que a autora pretendia, esclarecendo os objetivos, escreveu-se na candidatura «valorizar os ativos culturais, criando um produto inovador e diferenciado com base num dos maiores vultos culturais durienses (…) Miguel Torga; e «dar o devido valor a uma região tantas vezes esquecida no panorama nacional, desmistificar a ideia que há espetáculos só para algumas faixas da sociedade e originar um produto inovador e atrativo de novos públicos-alvo à região do Douro.»

A ideia-base da Eduarda Freitas está ali. Finalmente, por estes dias – já amanhã -, o que foi uma ideia será um momento, vários momentos, de fruição cultural, da autoria, na letra e música de transmontano-durienses, mas na execução que vai além do Marão. Mais uma vez, Torga continua a inspirar, porque os muros escondem, tornam-se redutores e o importante é derrubá-los. Afinal, somos todos uma parte do universal.

O Douro é vinho, mas é também paisagem, cultura e turismo. É, sobretudo, pessoas. E estas são aqui valorizadas. Quando se apresentou a candidatura do Alto Douro Vinhateiro à integração da lista da UNESCO dos Patrimónios Mundiais, a valorização da região e das suas gentes estava bem presente, pois «A paisagem cultural do Alto Douro combina a natureza monumental do vale do rio Douro, feito de encostas íngremes e solos pobres e acidentados, com a ação ancestral e contínua do Homem, adaptando o espaço às necessidades agrícolas de tipo mediterrâneo que a região suporta”, como pode ler-se em documento da Comissão Nacional da UNESCO. Uma ópera, como “arte total, que comunica a região, eleva a autoestima dos seus habitantes e que envolveu a comunidade no processo de criação”, como declarou a autora à RTP2. Só nos resta, pois, corresponder ao apelo dos artistas.

Os números não enganam

por vistodajanela, em 04.12.21

É muito interessante ver este gráfico relativo ao Salário mínimo nacional

Salário Mínimo Nacional.jpg

 

 

 

Vinte anos de Douro com menos pessoas

por vistodajanela, em 03.12.21

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Miradouro de São Leonardo da galafura

Na apresentação das comemorações dos 20 anos da classificação do Alto Douro Vinhateiro (ADV) com Património da Humanidade os números não enganam. Os habitantes da Região Demarcada do Douro, nestes vinte anos, desceram de 220 para 190 mil. Seria mau se ficássemos pelo enunciado destes números. Por isso, gostei de ler o artigo do Presidente da CCDR-N, Professor António Cunha, assim como as suas declarações que a TSF transcreveu: "enquanto as pessoas não tiverem níveis de rendimento que sejam adequados à sua manutenção acabarão por sair". Quando em 2001 foi aprovado na Assembleia da República um voto de congratulação pela integração na lista de Patrimónios da Humanidade da UNESCO a zona histórica de Guimarães e o Alto Douro Vinhateiro podia ler-se: «num como noutro caso, a classificação agora obtida pode constituir também factor de maior atratividade turística e, assim, de maior desenvolvimento da cidade e da região». E relativamente ao ADV, quem redigiu o texto não se esqueceu de referir que a «classificação reconhece e valoriza a intervenção equilibrada do homem na natureza (…) que transformou “ a montanha deserta em jardim suspenso”, nas palavras de Jaime Cortesão.

Foram as pessoas que construíram “os jardins”. Por isso, António Cabral canta num dos seus poemas: «nem Baco, nem meio Baco!:/ Aqui é o Homem,/desde as mãos ossudas e calosas,/desde o suor/ao sonho que transpõe as nebulosas.» Atente-se, agora, na seguinte afirmação do Presidente da CCDR-N: «O que tornará esta celebração especial (…) é o facto de colocar no centro da sua programação e do seu debate as pessoas.» Fundamental. Têm ocorrido falhas graves quando se pretende fazer algo que tenha a ver com desenvolvimento do Douro - social, económico ou cultural - e se trazem sistematicamente pessoas que nada ou pouco têm a ver com a região. Vêm servir o Douro e os durienses? Ou servir-se?

Tomei boa nota de que, finalmente, a Mátria está apta a subir ao palco. Uma ideia brilhante que recebeu da UTAD toda a compreensão e apoio. Eduarda Freitas e Fernando Lapa trabalharam muito para interpretar em forma de ópera «O Douro sublimado. Um poema geológico. A beleza absoluta.» de Torga. Já passaram uns anos em que esta labuta começou. Por cá, tudo demora muito. Desde fazer os muros de xisto até conseguir um apoio para fazer nascer um museu ou desenvolver um projeto de desenvolvimento. Imprescindível, sempre, ter presente as pessoas e envolvê-las.